Manifesto da Boa Vontade (V)

Fonte: Discurso proferido no lançamento da Pedra Fundamental do ParlaMundi, da LBV, em 21 de outubro de 1991, em Brasília, o qual foi publicado no Manifesto da Boa Vontade.

 

A riqueza de um país está no coração do seu Povo



A economia mundial não pode mais ficar à mercê de experiências, mesmo que bem-intencionadas, que cada vez mais desgastam a credibilidade das instituições diante do Povo. O Ser Humano, com seu Espírito eterno, é o centro da Economia, a geratriz de todo o progresso. Sem ele, não há o trabalho nem o capital. A riqueza de um país está no coração de sua gente. No entanto, nações inteiras ainda sofrem miséria... Convém lembrar que barrigas vazias e espíritos frustrados geralmente não estão dispostos a ouvir. Declarou o escritor e político brasileiro José Américo, numa hora de amargor, que "escândalo é morrer de fome em Canaã". E Santo Ambrósio, mentor de Santo Agostinho, asseverava: "Se possuis grandes riquezas e teu irmão passa fome, és ladrão. E se o necessitado morre, és assassino". Numa época em que pelo avanço da tecnologia as expectativas de produção ficam ultrapassadas, a fome é realmente um escândalo! Anacronicamente, nunca o mundo conheceu por um lado tanta fartura e por outro tanta miséria. Está faltando solidariedade à Economia.

A mola da Economia é o próprio Homem


Se o lucro é a razão da economia capitalista, dentro do inelutável princípio de que a empresa deve sobreviver e crescer, o pagamento de salários justos é a sua ética, mas também sua astúcia. Faz-se necessário combinar o máximo desempenho empresarial com a segurança e o bem-estar no comportamento da sociedade. Damos um exemplo: os trabalhadores brasileiros estão entre os mais mal remunerados do mundo. Argumentam alguns que sua produtividade é baixa. Pois, como poderia ser alta, se a grande maioria dos trabalhadores não se alimenta como é necessário, vive sobre morros e acrescenta ao seu tempo normal de serviço quatro ou cinco horas de extrema fadiga dentro de ônibus, trens e metrôs congestionados? Como pode ser alta a produtividade, se o operário não é adequadamente preparado, tendo de superar a debilidade do próprio corpo, corroído pela má nutrição e acometido de enfermidades? Como produzir bem, se a sua vida, longe de ser um exercício de liberdade e de alegria, é penoso martírio desde o momento em que desperta ao que adormece? E ainda corre por aí a lenda de que o Povo brasileiro é malandro. Mas que malandro é esse que passa fome? Malandros são aqueles que o exploram.

Nenhum país terá prosperidade assegurada, se não dispuser de sólido mercado interno. Por mais que se universalize a economia, é pela capacidade de compra dos consumidores de um país que se deve orientar a estratégia dos produtores. Se não há salários que permitam o consumo, as indústrias são obrigadas a competir no mercado internacional. E, assim, acaba sendo estabelecida injusta concorrência entre países de mão-de-obra mais barata. Então, além da permanência do atraso relativo das nações em desenvolvimento, acentua-se a diferença entre pobres e ricos nas relações econômicas internas. Daí decorrem fenômenos como o da inflação incontrolável, das recessões periódicas, do desespero social e, freqüentemente, da instabilidade política e da guerra civil.

Combatamos as causas e cessarão os efeitos


O Homem é efeito inteligente da Causa inteligente Deus, que é Amor.

Ataquemos, pois, as causas do problema econômico que são, antes de mais nada, morais e espirituais, pois há aqueles que só querem tudo para si mesmos. Mas, paralelamente, combatamos com urgência a miséria que assola multidões com todos os meios que tivermos às mãos no momento. Quem tem fome quer comer; quem tem sede precisa mitigá-la; quem está nu necessita de vestimenta; quem está doente anseia por curar-se; o desesperado aguarda o amparo. Não amanhã, já! E antes que, em delírio, as massas famintas venham arrancar o que não têm das mãos dos que têm alguma coisa.

A baderna que vem de cima


A baderna não se manifesta apenas nas insurreições populares incontroláveis. Enganar e explorar o Povo, levando-o ao desespero, também constitui baderna... a baderna que vem de cima.

A iniciativa particular não pode esquecer o Povo


A livre iniciativa econômica — a sociedade fundada nas relações de mercado — só poderá sobreviver se os homens de negócio entenderem a Verdade elementar de que próspera e sólida não é a empresa que retira lucros de parcelas salariais negadas, mas, sim, da eficiência administrativa, do espírito criador, da alta criatividade que são o resultado, em última análise, da ética de suas relações internas e com a comunidade. A verdadeira propriedade, em sentido mais amplo e profundo, é de toda a comunidade. A iniciativa particular só é Benéfica quando Beneficia o Povo e o País, e não um grupo de aproveitadores.

Não podemos nos conformar com as clamorosas injustiças sociais. São muitos os que a reconhecem, e não poucos são os que contra elas se manifestam. Mas quantos, no exercício do poder político ou nos negócios, agem realmente contra a iniqüidade? Por isso, alertamos que só a Economia Solidária é o caminho que nos libertará das crises que destroem os esforços de todos. E, como diz o Povo, "um dia a casa cai". E cai mesmo, se não forem tomadas as providências devidas.

Os trombadinhas são efeitos dos trombadões


Sem preconceitos e/ou fanatismos, urge promover a renovação das instituições sociais envelhecidas, pela ação vitalizante do Evangelho-Apocalipse do Cristo, compêndios eternos de Cultura Constitucional Divina, em que Jesus, o maior Educador de todos os tempos, infelizmente ainda pouco conhecido ou mal interpretado por muitos, estabeleceu as Suas normas espirituais de governo. E a maior delas, verdadeiro princípio de salvação nacional e internacional, é o Seu Novo Mandamento que diz: Amai-vos como Eu vos amei. Somente assim podereis ser conhecidos como meus discípulos (Evangelho de Jesus, segundo João, 13:34 e 35), Lei de Solidariedade Universal que exige decisão para ser mostrada com o seu efetivo valor civilizante. Ora, pregar o Amor na hora em que todos se amam é banal; apregoá-lo como solução política na hora do ódio é que justifica a existência humana na Terra. Entretanto, o Amor deve marchar lado a lado com a Justiça. Dizia Zarur: "Não há progresso na desordem". E para que as medidas desse processo transformador sejam sempre impulsionadas pela Vida, manifestamos também o nosso repúdio à institucionalização da eutanásia, da pena de morte e do aborto, crimes contra a vida, muitas vezes defendidos até por verdadeiros idealistas, mas que ignoram as Leis Espirituais.

A vergonhosa situação do menor carente no Brasil não se deve somente à falta de recursos do país.

Se hoje, em nossas ruas, andam na delinqüência os famosos trombadinhas, é porque, acima deles, desfilam ainda impunes os trombadões, mesmo que, por vezes, disfarçados em benfeitores do Povo. Com gente impune, a Sociedade não fica imune.

Reeducação e progresso com Espiritualidade


É no Ensino (Educação e Instrução) que reside a grande meta a ser atingida, já! E vamos mais longe: somente a reeducação, até mesmo da própria educação, pode garantir-nos dias de prosperidade e Paz social.

Sem Educação e Instrução não há progresso. Todavia, educar e instruir não é somente ensinar a ler, a mergulhar nos livros. Trata-se, acima de tudo, de iluminar com o Novo Mandamento de Jesus – Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Nisto reconhecerão todos que sois realmente meus discípulos — a inteligência para as funções harmônicas do Homem na Sociedade. Isto será conseguido quando a Criatura Humana souber ver, além do intelecto, com os olhos do Espírito. Por isso, ser o nosso lema, há tanto tempo: Educação e Cultura, Alimentação, Saúde e Trabalho com Espiritualidade.

É necessário harmonizar o Homem com a Vida, derrubar do pedestal a deusa morte, nome sob o qual se esconde a demagogia provocadora da fome, da miséria, do infortúnio... Instruir, sem educar o Espírito, é diplomar bandidos.

As reflexões nos conduzem à urgência da democratização do Saber, da universalização do Ensino. O Ensino é o mais exigido e o mais rentável dos investimentos sociais.

Cremos que, com um esforço concentrado na Educação e na Instrução, será possível criar uma grande pátria e um mundo melhor. Para isso, temos de começar agora, sem perder um só minuto, somando os esforços do Estado e da Sociedade.

A escola é imprescindível, mas não substitui o lar. O Estado e a Sociedade têm de, unidos, gerir soluções para que as famílias criem e eduquem dignamente os seus filhos.

Nossos empresários devem entender que de nada lhes valerá a modernização das máquinas, se não houver homens capazes de administrar-lhes o desempenho. E que é impossível pensar-se numa civilização de robôs que produzem, mas não consomem. De que vale a "glória" de o Nordeste brasileiro ser considerado a região de maior crescimento no mundo, se o seu Povo sofre o genocídio da fome crônica?

(Continua)

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem “o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno. Em suma, a constante matemática que harmoniza a equação da existência espiritual, moral, mental e humana. Ora, sem esse saber de que existimos em dois planos, portanto não unicamente no físico, fica difícil alcançarmos a Sociedade realmente Solidária Altruística Ecumênica, porque continuaremos a ignorar que o conhecimento da Espiritualidade Superior eleva o caráter das criaturas e, por conseguinte, o direciona à construção da Cidadania Planetária”.