Não há mundo sem a China

Página publicada em importantes jornais brasileiros, a exemplo da Folha de S.Paulo (São Paulo/SP), do Correio Braziliense (Brasília/DF) e do Correio da Bahia (Salvador/BA), além de ser reproduzida pela International Business and Management, em 1987 e entregue também aos participantes da IV Conferência sobre a Mulher realizada em Beijing, em 1995. O artigo foi ainda reproduzido na revista BOA VONTADE, edição 207, de novembro de 2005.

A Parábola do Velhinho Bobo

Há tempos recebi da Juventude Ecumênica da Boa Vontade de Deus esta reportagem que tão bem se aplica aos desafios que a população enfrenta nos dias de hoje:

Morando há 18 anos no Brasil, o professor de línguas orientais na Universidade de São Paulo (USP), Alexander Chung Yuan Yang, historiador e tradutor-intérprete chinês, em entrevista ao Jornal da LBV (1988), reconheceu que a Legião da Boa Vontade tem seu idealismo inspirado no Amor e na Fraternidade Ecumênica. A questão fundamental da filosofia de Confúcio (551-479 a.C.) também é o Amor e a Fraternidade entre os povos, comentou ele ao ler o artigo “Não há mundo sem a China”, escrito pelo jornalista Paiva Netto, em 1987, e publicado pela revista International Business and Management, naquele país, e concluiu que a mensagem da Instituição se resume no mais nobre dos sentimentos. Destacando um ponto na página dedicada à China que diz: Todos nós pertencemos a uma grande Família — a Sociedade Humana, prosseguiu: Se cumprirmos o ensinamento desse texto chinês, da LBV, viveremos a Sociedade Solidária Altruística Ecumênica a que o Irmão Paiva nele se referiu. Essa matéria se assemelha ao pensamento de Confúcio. E justamente o Brasil está na vanguarda desse ideal. Nele se reúnem etnias de todo o mundo, numa imensa Família. Precisamos na verdade reunir todos para desenvolvermos um paraíso, um país ideal, como exemplo para a Humanidade. Eu acho o Brasil ótimo. Orientais e ocidentais, índios e africanos convivem aqui dentro. Então considero muito bom a LBV ter começado aqui. O próprio Brasil é o representante do futuro. E este é o caminho: um mundo só, uma só Família. Que o dirigente da LBV insista em sua Fé em querer implantar esse Amor de Deus no planeta. Continue persistindo nesse caminho, pois um dia seu objetivo será conseguido: pregar o Amor de Deus em todas as nações”.

Na oportunidade, o senhor Alexander Chung Yuan Yang lembrou-se de uma antiga parábola do seu país, segundo a qual havia um velhinho que foi apelidado de Velhinho Bobo:

Ele morava na montanha do norte e tinha quase 90 anos. Em frente de sua casa havia duas gigantescas montanhas, que constituíam enorme obstáculo para entrar na sua residência. Daí ter resolvido acabar com elas. Mas ali habitava também outro ancião que era conhecido como Velhinho Inteligente, e este achava graça na atitude do outro exclamando: Você é mesmo bobo!. E o Velhinho Bobo assim respondeu ao seu interlocutor: Se eu morrer, vou ter meu filho, depois do meu filho virá meu neto, após meu neto irá nascer outro filho e os meus descendentes proliferarão, mas as montanhas, não. Então, por que eu não posso acabar com elas?. A paciência e a pertinácia juntaram-se aos seus filhos e netos para darem fim às montanhas. Os deuses ficaram comovidos com tamanha persistência que lhe mandaram mais dois filhos fortes que conseguiram realizar o objetivo do Velhinho Bobo.

Moral da história: a saga do Velhinho Bobo é uma prova de que a Fé e o trabalho pertinazes tudo regeneram.

Houvesse outros tantos Velhinhos Bobos e teria acabado toda a bobagem do mundo, já que os Velhinhos Inteligentes ainda não conseguiram livrar-se de tão grande inteligência ociosa, que empurra a Humanidade para o abismo. Certamente, movido pelo enfado contra tamanha esperteza a serviço da destruição da Terra, Alziro Zarur (1914-1979), saudoso Fundador da LBV, num desabafo, escreveu:

“Um soco no globo

“Haverá, porventura, solução
“Para o mal em que o mundo se debate?
“Algo que empolgue ou algo que arremate
“A única e suprema salvação?

 

“‘Não há! Não há!’ — responde o coração
“Que no meu peito aflitamente bate.
“‘Não há! Não haverá!’ — eis o rebate
“Ao último S.O.S. da aflição!

 

“Então o mundo é mesmo intransformável?
“E há de ser sempre assim, tão miserável,
“Por mais que a voz do Bem soluce e clame?

 

“E vem-me, em fúria, uma alucinação:
“Alcançar o universo nesta mão,
“Para arrasar com um murro a terra infame!”
.

Mas, logo em seguida, sem maniqueísmo, concluiu em:

“A vitória final

“‘De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus’ (Paulo Apóstolo na Epístola aos Romanos, 14:12).

“E sofres, meu irmão... Sofres por quê?
“Porque te caluniam detratores,
“Esses ferrenhos, míseros censores
“Da cega multidão que em Deus não crê?

 

“Temes, acaso, suportar as dores
“Que o teu preclaro espírito prevê?
“As dores, para quem renasce e vê,
“São como esses crisóis depuradores…

 

“Adiante, pois, se queres ter a glória
“De ouvir nos céus o canto da vitória,
“Numa triunfal aclamação de sons…

 

“Consciente, irmão, do que sozinho vales,
“Deixa o mundo falar e nada fales,
“Que a vitória final pertence aos bons!”
.

Eis por que o ministro Marcelo Pimentel, na década de 1960, disse que “a Legião da Boa Vontade não é obra para uma geração, mas para uma civilização”.

Sociedade Solidária Altruística Ecumênica

Aqui, gostaria de fazer um esclarecimento acerca desse conceito que reiterei durante o I Congresso Internacional dos Irmãos Operários de Deus (ocorrido em 1o de maio de 1983, no Botafogo Futebol e Regatas, na cidade do Rio de Janeiro/RJ), na ocasião, publicado em diversos órgãos de imprensa do Brasil e do exterior. Defendemos essa conceituação dos Ideais da Boa Vontade, de maneira a mover as diversas ações no campo social e educacional para a promoção de políticas públicas de desenvolvimento sustentável do país por meio da mais ampla inclusão social: a que contempla necessidades espirituais e físicas, promovendo a formação do Cidadão Ecumênico, componente ativo de uma Sociedade Solidária, transformada pelo Amor.

O exemplo para que haja fartura — não unicamente em benefício de uma comunidade, todavia de todo o planeta — vem do Cristo Ecumênico (isto é, liberto de sectarismos), o Divino Estadista. Só pode haver abundância, perfeitamente compartilhada, na Sociedade Solidária Altruística Ecumênica em que todos procurem entender-se e cada um reconheça que faz parte de uma gigantesca organização viva, espiritual e social, chamada humanidade. Um pequeno órgão, por menor que seja, se estiver combalido, afetará toda a complexa máquina humana (...).

Paulo Apóstolo, na Primeira Carta aos Coríntios, 12:26, declara: “Se um órgão está enfermo, todo o organismo sofre”. E Zarur ensinava que “o nervo de dente, tão pequenino, se doer, perturba toda a estabilidade do corpo” (...).

Sociedade Solidária, porque é preciso união; Altruística, para que essa aliança se realize sob a égide do Amor Fraterno, exemplificado pelo Cristo, em Seu Novo Mandamento: “Amai-vos como Eu vos amei. Somente assim podereis ser reconhecidos como meus discípulos. Não há maior Amor do que doar a própria vida pelos seus amigos” (Evangelho de Jesus, segundo João, 13:34 e 35; 15:9); Ecumênica, visto que é necessário entendimento neste planeta para que ele sobreviva. (...) Conciliar é, portanto, a nossa grande convocação, fundamentados que estamos na extensa experiência ecumênica da LBV: o Brasil e o mundo carecem da vivência imediata do ecumenismo religioso, étnico, empresarial, partidário, social, enfim, o Ecumenismo Irrestrito que nos fala do bom relacionamento entre seres humanos e suas nações, com base nos valores mais profundos do Espírito, e o Ecumenismo Total, que derruba as barreiras entre o mundo físico e o Mundo Espiritual Invisível, como preconizava Alziro Zarur.

Não há mundo sem a China

Pergunta de um leitor — Li com agrado seu artigo “A Parábola do Velhinho Bobo”. Uma lição chinesa de pertinácia acima de toda dificuldade. Naquele artigo, de 1988, é citada página que o senhor escreveu para a International Business and Management. Gostaria de tê-la. É possível?

Paiva Netto responde — Sim. Ei-la na íntegra. Ressalto ainda que “Não há mundo sem a China” foi reproduzida para os participantes da IV Conferência sobre a Mulher, realizada em Beijing, em setembro de 1995:

A mensagem da Legião da Boa Vontade (LBV) — Instituição fundada em 1950 no Brasil pelo escritor, poeta, jornalista e radialista Alziro Zarur, falecido em 1979 — é universal, mas também se dirige ao ser humano em particular. E o indivíduo, salvo pequenas diferenças de latitude e longitude, é em profundidade o mesmo, a despeito de regimes políticos. Mormente agora, quando o perigo nuclear ameaça, sem privilégios, todos os povos da Terra, não há que somar à violência já existente mais violência.

O caminho da Legião da Boa Vontade, LBV, é a Paz. Chega de guerras! A brutalidade é a lei dos irracionais, não do ser humano, que se considera superior.

Pregamos a valorização da criatura e de seu Espírito Imortal, que é a riqueza de um país. A fortuna da China são os chineses, como a do Brasil e a das demais nações é o seu povo.

Numa sociedade constantemente ameaçada pela destruição, convém lembrar que, a cada dia, pela queda das barreiras de espaço e tempo, os seres da Terra devem compenetrar-se de que formam a imensa família chamada Humanidade.

Não há mundo plausível sem a China. A simples leitura desapaixonada da História mostra realidade tão óbvia. A História é a mestra da vida, no dizer de Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.). Ademais, basta abrir o mapa-múndi.

Por isso, a Legião da Boa Vontade gostaria que a sua mensagem de Paz, Fraternidade e Solidariedade Ecumênica chegasse até o empreendedor e pertinaz povo chinês. (...)

Não somos nem comerciantes nem industriais, apenas simples pessoas de Boa Vontade, isto é, homens e mulheres, jovens e crianças que acreditam no bom senso da raça humana, que tem sobrevivido, justamente em virtude do seu bom senso, às piores crises nos muitos milênios do que se convencionou chamar civilização, mas que o será de fato quando os seres terrenos aprenderem a viver em Paz, pois terão compreendido que o sofrimento de uma nação é dor para todo o planeta. O organismo social é como o corpo humano: um órgão doente afeta-o por completo. A infelicidade do indivíduo, por mais inexpressivo que possa ser considerado, reflete sobre toda sociedade que se preze. Realmente, não há ser humano que não tenha elevada significação. Todos possuem extraordinário valor, que não pode ser menoscabado. Importa que o nosso semelhante é um Ser que sofre, luta, anseia vencer como os demais. Tem qualidades, carências e defeitos, porque é humano... É necessário que os que acreditam na Paz se unam, vençam suas diferenças. Se não, ninguém restará para contar a História...

Está, pois, atendida a sua correspondência. Não há mundo sem a China, realmente. Mas também não o há sem os Estados Unidos, a Rússia, a África, o Japão, o Canadá, o Chile, o Peru, a Bolívia, a Argentina, o Uruguai, a Venezuela, a Colômbia, o México, a Espanha, as Alemanhas*, o Irã, a Índia, a Itália, a França, Cuba, Portugal, a Bulgária, o Iraque, a Inglaterra, os árabes, os judeus e, para nós, muito menos sem o Brasil, com todos os seus defeitos, que, na maior parte das vezes, agravamos, esquecidos das suas notáveis virtudes e qualidades, que devemos aplicar para valer.

E já que falamos da China, este pensamento de Confúcio: “A compensação da vida é que para cada sonho que se não concretize há um pesadelo que não se realiza”.
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* Alemanha — Hoje reunificada.

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem “o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno. Em suma, a constante matemática que harmoniza a equação da existência espiritual, moral, mental e humana. Ora, sem esse saber de que existimos em dois planos, portanto não unicamente no físico, fica difícil alcançarmos a Sociedade realmente Solidária Altruística Ecumênica, porque continuaremos a ignorar que o conhecimento da Espiritualidade Superior eleva o caráter das criaturas e, por conseguinte, o direciona à construção da Cidadania Planetária”.