Momento poético

Fonte: Antiga revista Manchete, edição de 24 de fevereiro de 2000.

A brisa que acariciava a praia, num alegre entardecer de 1955, testemunhou a cena inusitada. Na verdade, o vento suave foi cúmplice do fato, que, mesmo sem versos, já seria uma autêntica poesia, transcrita na alma de um jovem. Na oportunidade, grafei, na forma de um poeminha, a rica emoção de haver sido arrebatado, num relance, pela encantadora visão. Minha doce namorada de adolescência teve a alça do vestido deslocada pelo sopro do mar...

David Sager - unsplash


Ah!
Teu colo,
lindo!
No meu deslumbramento
de criança,
assomou
como perene lembrança
para toda a minha vida.
Mesmo quando velho,
não o esquecerei.

Jamais!
Ah!
A maldade?!
Está nos olhos
de quem a vê.
E, logo,
lanço o repto
que antevê
que o mal do mundo
está na alma
do furibundo.
Não no coração
de quem me lê...
Nas dobras da existência,
o canto da Esperança:
é bom viver!...
Amar a beleza,
do Amor,
a fortaleza
de quem ama e crê.
Deus
não fez o mundo
para nos negar a alegria
de adorar a Natureza,
Sua cria.
Só não deseja
que a maculemos.
Pelo contrário,
Que a respeitemos,
porque a Vida...
A Vida!
foi feita para se viver!

 

Era um tempo diferente...

Tela: Henri Paul Motte (1846-1922)

Título da obra: Beware of Greeks bearing gifts.

Era um tempo diferente: para contemplar um simples joelho, tinha-se de vencer uma guerra de Tróia, com Homero; Helena; Páris; Heitor; Menelau; Agamenon; Ulisses; Aquiles, aquele do calcanhar frágil; Cassandra, a vidente desprezada; o inefável “presente de grego”, ou seja, o colossal cavalo de madeira, e tudo o mais...

Depois do momento poético, corri para a varanda da casa dela, peguei de um lápis, umas folhas de papel de pão e, deslumbradíssimo, ousei esses versinhos, que aí estão com alguns pequenos ajustes. A extasiante musa nunca os chegou a ler... A minha timidez era demasiada. Mostrei-os, porém, naquele mesmo dia, ao meu pai, Bruno Simões de Paiva (1911-2000), dedicado mentor de minha juventude. A gente, às vezes, discutia, é verdade. Mas como fomos amigos! Hoje, ele está com 88 anos*¹, bem vividos e sofridos.

Crítico severo dos meus arroubos “literários” juvenis, era romântico de carteirinha também. Foi complacente no seu veredicto... Ainda bem que o meu velho sempre foi meu bom companheiro. Tinha igualmente o coração enamorado. Basta lembrar que se apaixonou por minha mãe aos 9 anos de idade... Ela estava com 7. Uniram-se em 1940, duas décadas depois de se encontrarem em Camaçari pela primeira vez. A família foi contra. Eles eram primos. O padrinho do casamento foi o grande Dorival Caymmi*², conhecido deles desde a infância na Bahia, com suas tradições e costumes praianos, que o privilegiado marido de Dona Stella Maris e ditoso pai de Nana, Dori e Danilo continua cantando tão bem:

O Vento

Acervo da Família Caymmi

Família reunida. Na foto, a partir da esquerda, Dori, dona Stella, Danilo, Nana e Dorival.

Vamos chamar o vento
Vamos chamar o vento

Vento que dá na vela
Vela que leva o barco
Barco que leva a gente
Gente que leva o peixe
Peixe que dá dinheiro, Curimã

Curimã ê, Curimã lambaio
Curimã ê, Curimã lambaio
Curimã
Curimã ê, Curimã lambaio
Curimã ê, Curimã lambaio
Curimã

Vamos chamar o vento
Vamos chamar o vento

Vento que dá na vela
Vela que vira o barco
Barco que leva a gente
Gente que leva o peixe
Peixe que dá dinheiro, Curimã

Vamos chamar o vento
Vamos chamar o vento

A nossa existência é para ser respeitada e amada realmente, jamais destruída por excessos esmagadores. Observando o feliz exemplo de meus queridos pais, Bruno e Idalina (1913-1994), relembro, com Lícia, minha irmã, algumas palavras que publiquei em Reflexões e Pensamentos — Dialética da Boa Vontade, lançado em 1987:

Arquivo BV

Dona Idalina, "seu" Bruno e Lícia. A família Paiva num álbum de família.

“Assim como o sangue, circulando pelo corpo, oxigeniza e alimenta as células humanas, o Amor, percorrendo os mais recônditos pontos de nossa Alma, fertiliza-a e a torna plena de vida. (...) Ao final de tudo, ele — que se expressa das mais surpreendentes formas na grande tarefa de conduzir os homens à sobrevivência — vencerá! Continuamos acreditando na vitória final do Ser Humano e seu Espírito eterno, a Obra Máxima do Criador”.

Ei, Você aí! Pensou que fosse ler uma página pornográfica? Quebrou a cara, hein?!

 

Gandhi e o bom humor

Reprodução BV

Gandhi

Não quero perder o ensejo de reiterar uma coisa: amadurecer não significa tornar-se amargo, perder o humor. Dizia Mohandas Karamchandi Gandhi*³ que, se não sustentasse o júbilo no seu Espírito, não poderia suportar as suas lutas e já teria morrido há muito tempo. Guardemos a elucidativa lição do Mahatma.


*¹ Este artigo foi publicado em 2000. Em 24 de junho do mesmo ano, faltando um mês para completar 89 anos, Bruno Simões de Paiva voltou à Pátria Espiritual.

Dorival Caymmi — Em 30 de abril de 2000, esse grande cantor, compositor e poeta completou seu nonagésimo aniversário. Dorival, Bahia e Brasil são três palavras que se confundem, se misturam, em sentido, magia e música. O País reverencia um de seus mais conceituados nomes da MPB. Da mesma forma, a Legião da Boa Vontade e seu dirigente, Paiva Netto, dão-lhe os parabéns por data tão especial.

Gandhi nasceu em 1869 e foi morto a bala, em janeiro de 1948. Teve como principal discípulo Pandit Jawaharlal Nehru (1889-1964). Nehru, pai de Indira Gandhi (1917-1984), foi o primeiro dirigente da Índia libertada. Indira também governou o país de Krishna, como Primeira-Ministra, até ser assassinada pelos seus guarda-costas.

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem “o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno. Em suma, a constante matemática que harmoniza a equação da existência espiritual, moral, mental e humana. Ora, sem esse saber de que existimos em dois planos, portanto não unicamente no físico, fica difícil alcançarmos a Sociedade realmente Solidária Altruística Ecumênica, porque continuaremos a ignorar que o conhecimento da Espiritualidade Superior eleva o caráter das criaturas e, por conseguinte, o direciona à construção da Cidadania Planetária”.