Brecht, Heróis e Heróis (I)

Fonte: Jornal Folha de S.Paulo, edição de 19 de agosto de 1990, domingo.

No princípio de abril de 1989, tive uma conversa informal com jovens do corpo e da Alma que nos ajudam na LBV. Aqui, trechos do que eu disse naquele diálogo, mais tarde publicados em diversos jornais do País, por iniciativa dos próprios moços que me honraram com sua audiência:

(...) E a turma vai repetindo textos (muita vez... separados de contextos), porque fulano disse, sicrano atestou, beltrano afiançou...

Este poderá ser o caso de certo pensamento do renovador do teatro moderno, o iconoclástico Brecht: “Infeliz do Povo e do tempo que necessitam de heróis”.

Um dia, pelo amadurecimento das gentes, isto poderá ser uma realidade. Mas hoje...

No presente, à beira do Terceiro Milênio, o Ser Humano nem bem sabe ainda por que nasce, vive e morre... Para não falar que muitos, incluídos os que acreditam que haja Vida após a Vida, nem sequer suportam pensar que exista Vida antes da Vida... Daí, absurdos tais como o aborto. Legalizá-lo vai “resolver” o lado “legal”? Mas, certamente, não o do sentimento que é uma das coisas mais belas e vitais, que esse lado lindo da Humanidade, que é a Mulher, tem para nos oferecer. Sem isso, corremos maior risco de destruição do que o ferimento na camada de ozônio e tantos outros desacertos que praticamos contra a nossa própria sobrevivência.

Há os que não acreditam que a existência material se inicia no momento da concepção do corpo físico, quando o espermatozóide adentra o óvulo, iluminando um novo caminho para o Espírito que precisa reencarnar. E saiba-se que a Ciência hoje já não nega compulsoriamente a realidade do surgimento da existência humana a partir do exato instante da fecundação. Contudo, reiteramos, o Espírito preexiste à matéria e, por consequência, sua individualidade é dramaticamente atingida pela ação abortiva, com comprovadas seqüelas psicológicas para o sentimento materno, nesta e na outra existência, porque os mortos não morrem.

Mas voltando a Brecht, aí a turma lembra-se logo do Brasil... e desanca o pau nele. Eta, saco de pancadas!... A esperança é que ocorra como à boa massa de fazer bolo... Este País ainda é “vagarosa nau” em mar tempestuoso. Mas querer abrir-lhe buracos no casco só pode levá-la para o fundo. Por que desfazer dele, alegando, falsamente, por exemplo, que sua origem étnica é de natureza inferior? Cui prodest? Afinal de contas, este é o nosso País! Nosso! E já que estamos no mês de abril, nem Tiradentes escapa dos negativistas patológicos. No entanto, a violenta reação da coroa portuguesa demonstra a importância da Inconfidência Mineira.

Que Povo e que tempo não precisam de heróis? Quais?

Os Estados Unidos da América cultivam, e bem, os seus, como por exemplo George Washington, Eleanor Roosevelt, Abraham Lincoln, Helen Keller, George Washington Carver, Martin Luther King, além de duas grandes heroínas especiais: a Estátua da Liberdade e sua longeva, porquanto eficiente, Constituição. A Rússia possui os seus Lenin, Máximo Gorki, Gagarin, Alexander Nevsky, apesar da atual derrubada de expoentes antigos, que agora passaram a ser considerados falsos ídolos: Stalin, Brejnev, como exemplos. O próprio Brecht teve o seu Marx... E, com sua forte dialética, foi tratando de sacudir tudo, exaltando deuses... ateus materialistas... Mal imaginava que ele mesmo, Brecht, se tornaria, para muita gente, um herói do teatro por sua ousadia.

Por que teria o Brasil que ser exceção?! Deve ter seus heróis, sim. E verdadeiros. Porque, senão, os aproveitadores, que não perdem oportunidade passante, vão se valendo do vazio moral estabelecido na era caótica que vivemos. Então, até o traficante da esquina pode tornar-se ídolo da mocidade, que, apesar de Brecht, teimosamente necessita de heróis (exemplos), sem aspas... E os corruptos, a tão heróis são elevados, que uma espécie de adoração covarde, ante sua capacidade de impunemente sobreviver à lei, é estabelecida, desafiando analistas. É o escárnio máximo substituindo a capacidade criadora, com graves conseqüências, por mais que demorem.

(Continua)

_______________________________________________________
Nota dos editores
: Matéria publicada no jornal Diário Popular, de São Paulo/SP, em 23 de abril de 1998.

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem “o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno. Em suma, a constante matemática que harmoniza a equação da existência espiritual, moral, mental e humana. Ora, sem esse saber de que existimos em dois planos, portanto não unicamente no físico, fica difícil alcançarmos a Sociedade realmente Solidária Altruística Ecumênica, porque continuaremos a ignorar que o conhecimento da Espiritualidade Superior eleva o caráter das criaturas e, por conseguinte, o direciona à construção da Cidadania Planetária”.