Desumanidade gera desumanidade

Fonte: Jornal A Tribuna Regional, de Santo Ângelo/RS, edição de 4 e 5 de julho de 2012, quarta e quinta-feira. | Atualizado em novembro de 2019.

Em meu livro Jesus e a Cidadania do Espírito (2019), comento:

Desumanidade gera desumanidade. Aí está, em resumo, a explicação do estado atual do planeta. Porém, com a riqueza de nosso Espírito, podemos edificar um amanhã mais apreciável. Entretanto, nenhuma reforma será duradoura se não houver o sentido de Caridade, o respeito ao ser humano e o bom comando das gentes atuando na Alma. Para que isso realmente ocorra, é necessário que estejamos integrados em Deus, que é Amor (Primeira Epístola de João, 4:16), portanto, Caridade. E foi justamente o Discípulo Amado que nos advertiu em sua Primeira Epístola, 3:17 e 18: “Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o Amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e em verdade”.

Sem essa providência e perseverança nela, como preconiza Jesus, possivelmente nem saberíamos por onde começar a consertar o que, ao longo dos milênios, temos danificado. A integração verdadeira em Deus e em Sua Lei, expressa pelo Divino Mestre no Seu Novo Mandamento, é a reforma que falta ter início. Disse Jesus: "Novo Mandamento vos dou: amai-vos como Eu vos amei. Somente assim podereis ser reconhecidos como meus discípulos, se tiverdes o mesmo Amor uns pelos outros. O meu Mandamento é este: que vos ameis como Eu vos tenho amado. Não há maior Amor do que doar a própria vida pelos seus amigos. Porquanto, da mesma forma como o Pai me ama, Eu também vos amo. Permanecei no meu Amor" (Evangelho, segundo João, 13:34 e 35; 15:12, 13 e 9).

Tela: James Tissot (1836-1902)

Detalhe da obra intitulada: A Oração do Senhor.

Supremo poder da Alma

Caridade é a comprovação do supremo poder da Alma ao construir épocas melhores de vida (espiritual e material) para os países e seus povos, os Cidadãos do Espírito. Não há maior inspiração para a boa política do que ela, seguida pela Justiça aliada ao Bem. Absurdo?! O tempo mostrará que não. Aliás, já está manifestando isso ao vislumbrar a aurora da Política de Deus — a Política para o Espírito Eterno do ser humano. Resta às multidões aprender em definitivo a enxergar essa realidade e desenvolver o sentido de Compaixão. Assim, com o passar das eras, o mundo abandonará a doença que, pelos milênios, lhe tem feito tanto mal: a pouca atenção que dá à força do Amor Fraterno“princípio básico do Ser, fator gerador de vida, que está em toda parte e é tudo”.

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O polímata persa Avicena (aprox. 980-1037) — como também é conhecido o velho Ibn Sina, um dos brilhantes pensadores da Era de Ouro do Islã — percebeu que todas as coisas têm origem nesse Sentimento Universal, conforme explicitou em seu Tratado sobre o Amor:

“Todo ser ama o Bem Absoluto com um amor inato, e o Bem Absoluto se manifesta a todos aqueles que O amam. No entanto, a capacidade de receber esta manifestação difere em grau, assim como a conexão que se tem com Ele. (...)

“Caso pudesse ocorrer de o Bem Absoluto não ter Se manifestado, nada poderia ser adquirido Dele, e se nada pudesse ser obtido Dele, nada poderia existir. Portanto, nada pode haver se Sua manifestação não estiver presente, uma vez que Ele é a causa de toda a existência”.

Reprodução BV

Alexis de Tocqueville

Sobre o sublime ato de se doar ao próximo e suas consequências sociais, assim se expressou o pensador político francês Alexis de Tocqueville (1805-1859): “A caridade dos indivíduos se dedica às maiores misérias, procura o infortúnio sem publicidade e, de maneira silenciosa e espontânea, repara os males. (...) Pode produzir somente resultados benéficos. (...) Alivia muitas misérias, sem produzir nenhuma”.

Essas palavras do autor de A democracia na América nos remetem ao milenar estatuto deixado por Jesus, o Provedor Celeste, a todos os Cidadãos do Espírito:

“2 Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nos templos e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade, em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.

“3 Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita” (Evangelho, segundo Mateus, 6:2 e 3).

Quando o ser humano verdadeiramente ama, estabelece uma sintonia perfeita com as Leis de Amor e Justiça legadas ao mundo pelo Pai Celestial. A criatura retorna ao seio do Seu Criador. Pode-se transitar pelos séculos, mas essa glória indescritível do Ecumenismo Divino*, que é o contato socioespiritual entre nós e Deus, um dia, se realizará.

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Nota dos editores

* Ecumenismo Divino — Leia a respeito em “Os Quatro Pilares do Ecumenismo”, nas Sagradas Diretrizes Espirituais da Religião de Deus, do Cristo e do Espírito Santo (1987), volume 1, de Paiva Netto.

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem “o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno. Em suma, a constante matemática que harmoniza a equação da existência espiritual, moral, mental e humana. Ora, sem esse saber de que existimos em dois planos, portanto não unicamente no físico, fica difícil alcançarmos a Sociedade realmente Solidária Altruística Ecumênica, porque continuaremos a ignorar que o conhecimento da Espiritualidade Superior eleva o caráter das criaturas e, por conseguinte, o direciona à construção da Cidadania Planetária”.