Quem tem ideal não envelhece

Fonte: Jornal Folha de S.Paulo, edição de 3 de maio de 1987, domingo. | Atualizado em junho de 2018.

Achei, nos meus alfarrábios, texto que publiquei, em 3 de maio de 1987, na Folha de S. Paulo, dedicado à Melhor Idade:

Arquivo BV

Alziro Zarur

Tela: James Tissot (1836-1902)

João o Evangelista.

Na Religião de Deus, do Cristo e do Espírito Santo procuramos sempre aliar a energia dadivosa dos mais novos ao patrimônio da experiência dos mais idosos. E isto se consegue pela influência do Amor Fraterno, que não é velho nem novo; é eterno porque é Deus. O Pai Celestial é Amor, consoante definiu João, em sua Primeira Epístola, 4:8. E completava Zarur: “E nada existe fora desse Amor”. Por isso, quem tem ideal não envelhece. O corpo pode baquear. Mas o Espírito está sempre alerta. Jovem é aquele que não perdeu o Ideal no Bem.

Reprodução BV

Immanuel Kant

Que é novo, que é o antigo, afinal? Nada! Immanuel Kant (1724-1804), o grande filósofo alemão, autor de Crítica da Razão Pura, afirmava, mutatis mutandis, que o tempo é a grande mentira dos homens. Portanto, acima de tempo-espaço e seus limites. Real é a Vida, que é eterna.

Sidónio Muralha, poeta português que se radicou no Brasil, onde viveu até o seu falecimento em 1982, louvou essa eternidade do valor intemporal no seu belíssimo “Cântico à Velhice”: “(...) É este o cântico/ Dedicado ao que chamam/de velhice/ que é a infância/ lançada mais longe,/ onde o horizonte/ se rasga e alarga (...)”.

Gilberto Bertolin

Sidónio Muralha e sua esposa Helen Anne Butler Muralha.

A composição poética, a recebemos de Dona Helen Anne Butler Muralha, esposa do saudoso poeta, que gentilmente também nos cedeu a foto do casal. Vamos, então, ao esforço bem-sucedido de Muralha, por desmistificar o tempo, esse fantasma que atormenta o homem-ser-restrito, até que um dia ele perceba que, na verdade, é Espírito Eterno, pairando acima de todos os grilhões da carne perecível. 

“Cântico à Velhice”

“Minha velha Portuguesa/ com o teu rosto marcado,/ mas sem medo da vida/ (e ainda menos da morte),/ atira o teu cajado contra o tempo/ que passa e não tem presente,/ porque na segunda sílaba do  presente/ já passou a ser passado.

“Atira teu cajado, companheira,/ contra esse tempo efémero/ que não consegue apagar-nos.

“Nós corremos no sangue/ das novas gerações/ e os velhos são as crianças/ do futuro, /as primaveras que vieram dos invernos,/ as flores que rebentam,/ que explodem da terra,/ como tu,/ minha querida portuguesa,/ que em cada ruga que tens/ existe um poema escrito/ tão grande e tão profundo/ que é um cântico à velhice.

“Sim, um cântico sem fronteiras,/ porque os velhos/ têm asas imensas/ que voam no sentido contrário,/ desafiando o espaço/ como quem roça o mar,/ mergulha para sempre/ mas deixa, perto do sol,/ uma mensagem salgada.

“Velha portuguesa/ feita de oceano/ como todos nós,/ que somos navios,/ barcos, canoas,/ remos e lemos,/ quilhas,/ algas e maresia,/ mastros de audácia/ que derrotam tempestades,/ caravelas, descobertas,/ velha portuguesa/ descobre que o tempo/ tem medo do teu cajado/ e desanca as horas,/ e desaba as horas,/ e desaba os relógios/ que são acidentes/indecentemente formais.

“É este o cântico/ dedicado ao que chamam/ de velhice/ que é a infância/ lançada mais longe,/ onde o horizonte/se rasga e alarga.

“Não esqueças, portuguesa amiga,/ de vergastares o tempo/com o teu cajado.”

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem "o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno".