O Sentido de Religião

Fonte: Jornal O Sul, edição de 23 de janeiro de 2007 | Atualizado em março de 2017.

Nada melhor do que falar sobre os assuntos transcendentais, aqueles que erguerão, definitivamente, o Homem-Espiritual, apto a domar os excessos materializantes de uma globalização firmada sobre a mentalidade de que o consumismo desenfreado é a felicidade ideal para a criatura humana. Isso é uma fraude, a começar pelo fato de que multidões não possuem o suficiente para se manterem dignamente vivas.

Não sou contra o comércio. Seria uma doidice. Apenas tenho a convicção de que o ser vivente, com seu Espírito Imortal, deve ser o centro da Economia e não um seu joguete. Daí o valor do sentimento religioso, quando verdadeiramente se expressa pelo Amor, o Regente Supremo da Fraternidade e da Solidariedade de que o mundo continua carecendo. Precisamos finalmente caminhar mais adiante e dizer que o Espírito Eterno, que habita o corpo humano, ele sim, é a medida de todas as coisas, porquanto é Cidadão Celeste.

Economia sem sentimento superior de Alma resulta nos diversos tipos de poluição que vão liquidando, a olhos vistos, a nossa residência coletiva que muitos pretendem, pelos seus atos de extrema ganância, converter num cortiço, em que também fatalmente morarão.

Para superar esse estado de coisas, quebrar essa estrutura alienada de progresso de destruição, é preciso que todos se unam: religiosos e ateus, no encontro das soluções que se mostram urgentes.

Acima de tudo, há que vigorar a Fraternidade Ecumênica, capaz de congregar os adversos e fazer surgir de seus paradoxos soluções para os problemas que estão afogando a Humanidade em crescente fuligem.

A esse processo de harmonização para transformar ativamente chama-se também Ecumenismo.

Dia Mundial da Religião

Em 21 de janeiro celebra-se o Dia Mundial da Religião.

Arquivo BV

Alziro Zarur 

Conforme escrevi nas minhas colunas da Folha de S.Paulo e em outras publicações no Brasil e no Exterior, na década de 1980, não vejo Religião como ringues de luta livre, nos quais as muitas crenças se violentam no ataque ou na defesa de princípios, ou de Deus, que é Amor e que, por isso, não pode aprovar manifestações de ódio em Seu Santo Nome nem precisa da defesa raivosa de quem quer que seja. Alziro Zarur (1914-1979), saudoso Fundador da Legião da Boa Vontade, dizia que “o maior criminoso do mundo é aquele que prega o ódio em nome de Deus”.

Religião na vanguarda ética

Compreendo ecumenicamente Religião como Fraternidade, União, Respeito à Vida, Iluminação dos Espíritos, que todos somos. Só posso entendê-la como algo dinâmico, vivo, pragmático, realizador, que abre caminhos de luz nas Almas e que, por essa razão, tem de estar na vanguarda ética. Não a entenderia, se ela não atuasse também de modo prático na transformação das realidades tristes que ainda atormentam os povos. Esses, cada vez mais, estão necessitados de Deus, que é antídoto para os males sociais, morais e espirituais, incluídos o imobilismo, o sectarismo e a intolerância degeneradores, que obscurecem o Espírito das multidões.

Religião e Fraternidade

Religião é para tornar o Ser Humano melhor, integrando-o no seu Criador, pelo exercício da Fraternidade e da Justiça entre as Suas criaturas. Com apurado senso de oportunidade, preconizava o Profeta Muhammad (570-632), no Alcorão Sagrado, no versículo 46, da 29a Surata, “Al ‘Ancabout” (A Aranha): “(...) Cremos no que nos foi revelado, assim como no que vos foi revelado antes; nosso Deus e o vosso são Um e a Ele nos submetemos”.

Deus, Sabedoria e Entendimento

Tela: Fray Juan de la Miseria

Santa Teresa d’Ávila

O Pai Celestial é fonte inesgotável de Sabedoria e Entendimento, quando não analisado sob forma estereotipada ou caricaturada. Vem-me à lembrança esta manifestação de Santa Teresa de Ávila (1515-1582): “Procuremos sempre olhar as virtudes e as coisas boas que virmos nos outros e tapar-lhes os defeitos com os nossos grandes pecados”.

Voltaire

Tudo evolui. Ontem se afirmava que a Terra seria o centro do Universo. Tudo evolui, realmente! Por que então as crenças teriam de parar no tempo? Pelo contrário, Religião, quando sinônimo de Solidariedade e Misericórdia, tem de caminhar harmoniosamente na vanguarda. Bem a propósito, esta meditação do nada menos que cético Voltaire (1694-1778): “A tolerância é tão necessária na Política como na Religião. Só o orgulho é intolerante”.

O verdadeiro religioso respeita os ateus, porque afinal eles também são filhos de Deus, portanto, nossos Irmãos. Aliás, a preocupação justa dos ateus com a existência, ou não, do Criador é tão marcante, que até formam rima com Ele, pelo menos em português. Para que o sentimento de religiosidade, que nos deve, por exemplo, congraçar no esforço contra a fome e a violência? Aí está: Religião é confraternidade.

Religião para esquentar a frieza

Cabe ainda aqui recordar este pensamento abrangente de Zarur: “Religião, Filosofia, Ciência e Política são quatro aspectos da mesma Verdade, que é Deus”.

Ora, querer conservar esses ramos do saber universal confinados em departamentos estanques, ou em odioso conflito, tem sido a origem de muitos males que nos afligem, em especial tratando-se de Religião, entendida no mais alto sentido. É principalmente de sua área que deve provir o espírito solidário, que faltando à Comunicação, à Ciência, à Filosofia, à Educação, à Economia, à Arte, ao Esporte, à Política, resulta na frieza de sentimentos a qual vem caracterizando as relações humanas principalmente nestes últimos tempos.

Educação com Espiritualidade Ecumênica

A ausência de Fraternidade tem suscitado grande defasagem entre progresso material e amadurecimento moral e espiritual. Mas é sempre hora de aplacar ressentimentos. Entretanto, não haverá Paz enquanto persistirem cruéis preconceitos humanos e desníveis sociais criminosos, provocados pela ganância, que, por meio da eficiente Educação com Espiritualidade Ecumênica, devemos combater.

Progresso com Espiritualidade Ecumênica

Pela insistência na busca do progresso que menospreza o sentido da Espiritualidade Ecumênica, que é a relação interior das Almas com seu Criador Supremo, o Ser Humano condena-se à desumanidade permanente. Tal estado de anomalia geral é resultante da mentalidade belicosa, que gerações vêm preferindo, por exemplo, ao Novo Mandamento de Jesus, o Cristo Ecumênico: “Amai-vos como Eu vos amei. Somente assim podereis ser reconhecidos como meus discípulos, se tiverdes o mesmo Amor uns pelos outros. (...) O meu Mandamento é este: que vos ameis uns aos outros como Eu vos tenho amado. Não há maior Amor do que este: dar a sua própria Vida pelos seus amigos. E vós sereis meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando. E Eu vos mando isto: amai-vos como Eu vos amei. Já não mais vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. Mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer. Não fostes vós que me escolhestes; pelo contrário, fui Eu que vos escolhi e vos designei para que vades e deis bons frutos, de modo que o vosso fruto permaneça, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vos conceda. E isto Eu vos mando: que vos ameis uns aos outros como Eu vos tenho amado. (...) Porquanto, da mesma forma como o Pai me ama, Eu também vos amo. Permanecei no meu Amor” (Evangelho de Jesus, segundo João, 13:34 e 35; 15:12 a 17 e 9).

Reprodução BV

Mohandas K. Gandhi

Se não optarmos por caminhos semelhantes, estaremos sentenciados à realidade denunciada pelo Gandhi (1869-1948): “Olho por olho, e a Humanidade acabará cega”.

Sempre um bom termo pode surgir quando os indivíduos nele lealmente se empenham. E isso tem feito que a civilização, pelo menos o que temos visto por aí como tal, milagrosamente sobreviva aos seus piores tempos de loucura. A sabedoria do Talmud dá o seu recado prático: “A Paz é para o mundo o que o fermento é para a massa”. Exato!

Arquivo BV

Martin Luther King 

Há quem prefira referir-se ao espírito religioso, exaltando desvios patológicos ocorridos no transcorrer dos milênios. (De modo algum incluo nestes comentários os historiadores e analistas de bom senso.) Creio que essa conduta beligerante, que manchou de sangue a História, deva ser afastada de nossos corações, por força de atos justos, porquanto maiores são as razões que nos devem confraternizar do que as que servem para acirrar rancores. O ódio é arma voltada contra o peito de quem odeia. Muito oportuna, então, esta advertência do Pastor Martin Luther King (1929-1968), que não negou a própria vida aos ideais que defendia: “Aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os peixes, mas não a arte de conviver como irmãos”.

Por isso, costumo dizer nas minhas palestras radiofônicas: o milagre que Deus espera dos Seres Humanos é que aprendam a amar-se.

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem "o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno".