Distração humana, Dinamarca e destino

Fonte: Jornal O Sul, edições de 28 de setembro e 5 de outubro de 2009, segundas-feiras.

A distração humana quanto à própria sobrevivência às vezes é de espantar. Exemplo: no admirável filme Guerra e Paz, de 1956, inspirado no livro homônimo do célebre escritor Leon Tolstói (1828-1919), conta-se que, quando Napoleão Bonaparte (1769-1821) e suas tropas se aproximavam de Moscou, jovens aristocratas descuidados entupiam-se de álcool, fazendo inacreditáveis acrobacias nas janelas enquanto derramavam vodca goela abaixo. Está bem!... Apesar de tudo, o Corso perdeu a guerra, mas sua derrota teve início desde a aproximação do “general inverno”, que botou, no século seguinte, o vigésimo, Hitler (1889-1945) e Von Paulus (1890-1957) de joelhos. É também verdade que os russos acabaram adotando a política de “terra queimada” do ex-ministro da guerra do imperador Alexandre I (1777-1825), Mikhail Barklay de Tolli (1761-1818), e o general Kutuzov (1745-1813) impiedosamente fustigou Bonaparte até que o viu fora da Rússia em 14 de dezembro de 1812. Mas que a fina flor da sociedade czarista andou bêbada na hora errada, andou.

Por mais que poderosas vozes proclamem o perigo que paira sobre nossas cabeças, na aparência não existe ainda uma atitude mundial unificada convencida da gravidade da explosão climática que se prepara e já nos atinge com fenômenos surpreendentes e funestos, tais como as procelas e tornados que vêm flagelando o belo Estado de Santa Catarina — sem contar as chuvas torrenciais que desalojaram milhares de pessoas e deixaram cerca de 4.000 desabrigados nas cidades de Duque de Caxias, Belford Roxo, Três Rios e Tanguá, no Rio de Janeiro. Situação semelhante é enfrentada por moradores da região metropolitana de Porto Alegre, além de outros 15 municípios gaúchos.

Opiniões gabaritadas, a exemplo do premiado cientista Paul Mayewski, diretor e professor do Instituto de Mudanças Climáticas da Universidade do Maine, EUA, há mais de 40 anos estudando a Antártida, afirmam que o aumento na temperatura do planeta acarretaria “uma tremenda redistribuição em relação à agricultura. Mudanças espantosas nos padrões de tempestades.O nível do mar também poderia subir muitos metros. Haveria migrações imensas. Seria a maior catástrofe do mundo moderno”.

Os governantes de diversos países, em dezembro, se reunirão na Dinamarca. Contudo, têm enormes desafios pela frente, um deles a estrutura econômica na qual vivemos, alicerçada nos combustíveis fósseis, provocadores de doenças, porquanto, entre outros males, empesteiam o ar que respiramos. Sim, há o grande esforço por matrizes energéticas limpas. Será, porém, que já não ultrapassamos o ponto sem retorno? É o que diz o dr. James Hansen, diretor de instituto da Nasa sobre o clima, considerado o maior pesquisador acerca de aquecimento global.

Otimismo x Realidade

Sou por natureza otimista, no entanto procuro manter-me com atenção fixada na realidade exposta diante de todos. Ora, já estamos vivendo, como terráqueos, nosso período de liberdade condicional há algum tempo. Al Gore não é um amador. Seu documentário Uma verdade inconveniente deveria ter chocado a população terrestre. Todavia, persiste uma espécie de sono hipnótico que só não o veem os que se encontram flagrados por aquela chave desenhada por Jesus, no Seu Evangelho segundo Lucas, 17:26 e 27: “E, como aconteceu no tempo de Noé, assim ocorrerá nos dias do Filho de Deus. Comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e consumiu a todos”.

E não há aqui nenhuma história de misticismo idiota ou idiotizante, que é a acusação preferida de alguns que sistematicamente negam a existência do intruso que tenta arrombar-lhes a porta. O caso da bolha econômica norte-americana, que afetou todo o orbe, é emblemático. Ter apenas o conhecimento sobre os perigos que nos rondam não nos faz prudentes. Há aqueles que se entregam ao canto das sereias de interesses que, agora ou depois, se mostram genocidas. Só que nesta era globalizante ninguém, mas ninguém mesmo, está protegido de algo realmente ameaçador, que tenha ocorrido ou venha a acontecer nos pontos mais isolados da Terra, se é que estes ainda existem. O vírus, o menor-maior inimigo que nos assusta, hoje mais do que ontem, nunca encontrou condições tão favoráveis à sua proliferação como nestes tempos. Sua fiel amiga, Dona Poluição, e outros companheiros menos votados o abastecem de tudo que necessita para instalar-se em nosso corpo e tornar-se dificilmente controlável pelos abismos de mutações inconcebíveis.

De fato, a grave questão do aquecimento planetário, com suas consequências fatais, agravada pela poluição que enferma as multidões, põe toda criatura viva em risco.

A Lição da História

Portanto, é básico voltarmos os olhos ao passado para melhor nos defender, agora e no futuro, segundo propõe Brian Fagan, autor de O longo verão Como o clima mudou a civilização.

Estudiosos, entre eles Fagan, arqueólogo inglês, destacam as possíveis ligações entre as mudanças climáticas e, por exemplo, o alude mongólico sob o comando de Genghis Khan (1165?-1227). Povo nômade, necessitava de terra fértil e água farta para as suas criações. Os territórios semiáridos, como as estepes da Mongólia, ao experimentarem épocas de muita chuva, em virtude de alterações atmosféricas, proporcionaram ao Khan condições para fortalecer a sua cavalaria guerreira e expandir-se, esmagando a quem se lhe opusesse.

Compromisso

De volta ao século 21, populoso e em severa crise econômica, mais para uns que para outros, aliada ao poderio bélico atual, qualquer migração se tornará mais perigosa, consoante ponderei à jornalista portuguesa Ana Serra.

Aguardemos atentos a 15a Conferência da Convenção do Clima (COP15), que ocorrerá em dezembro, na Dinamarca.

Essa reunião, considerada por especialistas a mais importante da Humanidade desde o acordo pós-Segunda Guerra, visa reforçar o compromisso dos países do G8+5 em manter o aquecimento global abaixo de 2º C.

“Será?”, arguem alguns. Mas continuemos labutando, torcendo pelas propostas que nosso país levará e, ao mesmo tempo, esperançosos de um melhor acordo em Copenhague, na expectativa de que o planeta se torne o grande vencedor na mesa de discussão. O contrário disso seria governos não governando para seus governados. Mais dia, menos dia, um verdadeiro suicídio coletivo. Afinal de contas, o destino do mundo está sendo decidido. A Mãe Natureza e as novas gerações suplicam por nossa solidariedade e mais juízo.

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem “o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno. Em suma, a constante matemática que harmoniza a equação da existência espiritual, moral, mental e humana. Ora, sem esse saber de que existimos em dois planos, portanto não unicamente no físico, fica difícil alcançarmos a Sociedade realmente Solidária Altruística Ecumênica, porque continuaremos a ignorar que o conhecimento da Espiritualidade Superior eleva o caráter das criaturas e, por conseguinte, o direciona à construção da Cidadania Planetária”.