A função civilizadora do comércio – Parte I

Fonte: Revista BOA VONTADE, edição 192, de agosto de 2004. | Atualizado em agosto de 2018.

Neste artigo dividido em quatro partes, o escritor Paiva Netto apresenta com exclusividade a vocês, leitoras e leitores da revista BOA VONTADE, trechos do capítulo VII dos originais de sua obra O Capital de Deus, nascidos de seus improvisos no rádio e na televisão. Boa leitura!

Arquivo pessoal

Bruno Simões de Paiva

Reprodução BV

Com saudade, vêm-me à memória ensinamentos que o meu saudoso pai, Bruno Simões de Paiva (1911-2000), me transmitia, quando ainda eu era jovem. Uma das coisas que nunca esqueci foi a menção à famosa Rota da Seda, conhecida desde os tempos dos romanos, sendo uma das mais importantes durante a Idade Média. Com mais de 6 mil quilômetros de comprimento, viabilizava o comércio entre o Ocidente e o Oriente.

Reprodução BV

Buda

Esse antigo roteiro comercial acabou tornando-se também um corredor para a troca de ideias entre as duas faces do mundo. (...) Os Irmãos budistas não perderam a oportunidade: expandiram o pensamento do Sakya-Muni*para outros povos por meio das condições favoráveis que o formidável caminho lhes oferecia*2. Das eras mais remotas da História chega-nos o preceito de que o comércio possui um exercício civilizador. Basta ver que os negociantes fundaram inúmeros povoados ao longo dos trajetos, o que lhes proporcionou consequentemente o aumento dos seus ganhos, como nas viagens marítimas dos fenícios que inauguraram feitorias por onde passavam. No Brasil, temos o exemplo das Entradas e Bandeiras. Infelizmente, tudo regado a sangue, no grande banquete da violência. O ser humano ainda trilha caminhos distanciados, até que entenda constituir, ele próprio, o Capital de Deus.

Os efeitos de conhecer a Espiritualidade Superior

Tela: Guido Reni (1575-1642)

Lucas

Trata-se de trabalho de longo prazo, mas se, por um lado, a atividade mercantil estabeleceu, em várias épocas, pequenas comunidades que, mais tarde, se tornariam até mesmo grandes metrópoles, por outro, não pode deixar de ela própria (a atividade mercantil) sofrer um processo urgente de civilização com Espiritualidade Celeste, para que não se veja, em algum momento, alvo desta parábola em que Jesus reprova a avareza (Evangelho, segundo Lucas, 12:13 a 21):

A parábola do rico insensato*3

“13 Nesse ponto, um homem que estava no meio da multidão Lhe falou: ‘Mestre Jesus, ordena a meu irmão que reparta comigo a herança’.

“14 Mas Jesus lhe respondeu: ‘Homem, quem me constituiu juiz ou partidor entre vós?’

“15 Então lhes recomendou: ‘Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza, porque a vida de um Homem não consiste na abundância dos bens que ele possui’.

“16 E lhes proferiu ainda uma parábola, dizendo: ‘O campo de um homem rico produziu com abundância’.

“17 E ele arrazoava consigo mesmo: ‘Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos?’

“18 E disse: ‘Farei isto: destruirei os meus celeiros, os reconstruirei maiores e aí recolherei todo o meu produto e todos os meus bens.

“19 Então direi à minha Alma: Tens em depósito muitos bens para muitos anos: descansa, come e bebe, e regala-te!’

“20 Mas Deus então lhe disse: ‘Louco! Esta noite te pedirão a Alma; e o que tens preparado para quem será?’

“21 ‘Assim acontece a quem entesoura para si, e não é rico diante de Deus’”.

Arquivo BV

Alziro Zarur

Como espiritualizar, porém, a atividade humana sem que os seres humanos reconheçam a veracidade do Mundo Espiritual e suas Leis? O Plano Invisível*4 é ainda insondável (mas deixará de ser) aos restritos sentidos físicos, pois constitui uma realidade, um Poder Ético Transcendental, que o exímio poeta Alziro Zarur (1914-1979), saudoso fundador da Legião da Boa Vontade, descreve no seu Poema do Deus Divino, retratado nessas estrofes:

Poema do Deus Divino

O Deus que é a Perfeição, e que ora eu tento

Cantar em versos de sinceridade,

Eu nunca O vi, como em nenhum momento

Vi eu o vento ou a eletricidade.


Mas esse Deus, que é o meu eterno alento,

Deus de Amor, de Justiça e de Bondade,

Eu, que O não vejo, eu O sinto de verdade,

Como à eletricidade, como ao vento.

Nanotecnologia e crença

Reprodução BV

Leucipo

Reprodução BV

Demócrito

Nestes tempos de nanotecnologia*5, não é tão necessário ver para acreditar, mesmo cientificamente. Leucipo (460-370 a.C.) e Demócrito (470-370 a.C.) enunciaram a existência do átomo, mas nem por isso o enxergaram, o tocaram ou sentiram o seu cheiro.

Assim acontece, ainda hoje, relativamente ao Reino de Deus, que, antes de ser registrado pelos nossos olhos, deve ser pressentido por nosso coração. Disse o Cristo: “O Reino de Deus está dentro de vós” (Evangelho do Cristo, segundo Lucas, 17:21).

Aliás, o órgão — considerado no Ocidente como representativo do sentimento — alcança, vezes bastantes, mais prontamente aquilo que o cálculo demora a concluir. Grande avanço para a humanidade será o dia em que coração esclarecido e mente percebida da Mecânica Espiritual caminharem juntas.

Arquivo LBV

João Paulo II

Como afirmou o papa João Paulo II (1920-2005): “Na realidade, todas as coisas, todos os acontecimentos, para quem os sabe ler com profundidade, encerram uma mensagem que, em definitivo, aponta para Deus”.

Tela: James Tissot (1836-1902)

João o Evangelista.

Evidentemente, o saudoso pontífice fala do Deus que é Amor, definido por João Evangelista em sua Primeira Epístola, 4:8: “Aquele que não ama não conhece Deus, porque Deus é Amor”.

Certa vez, escrevi que a Ciência, iluminada pelo Amor, eleva o ser humano à conquista da Verdade.

Reprodução BV

Aristóteles

In medio virtus est, ponderam os antigos, desde Aristóteles (384-322 a.C.), em Ética a Nicômaco. Realmente, a virtude encontra-se no equilíbrio, e não somente no campo moral, porém em todos os demais, que este deve iluminar.

(Continua)

__________________________

*1 Sakya-Muni — Assim também é conhecido o Buda. Sakya é a região de onde proveio; Muni quer dizer “O Sábio”.

*2 Nota dos editores

“(...) que o formidável caminho lhes oferecia” — No seu livro Voltamos, Paiva Netto refere-se às novas e boas estradas de Portugal (onde se encontra a sede da Legião da Boa Vontade na Europa), pois as vê como ponto de partida, já que fazem conexão com a Espanha e dali para os demais países, sendo, assim, forte instrumento para a expansão da fraterna Doutrina da Religião de Deus, do Cristo e do Espírito Santo, Religião do Amor Universal, a Religião do Terceiro Milênio. A respeito dela escreveu seu Proclamador, Alziro Zarur (1914-1979): “A Religião de Deus, do Cristo e do Espírito Santo é mais que toda a Religião: é toda a Ciência, é toda a Filosofia, é toda a Política e toda a Moral, todo o progresso humano, unido ao progresso de todos os mundos, de todas as Humanidades Siderais – O Amor Universal na apoteose ao Criador Onipotente, Onisciente e Onipresente, o nosso Deus, o nosso Pai!”.

*3 A parábola do rico insensato — Essa passagem do Evangelho de Jesus, segundo Lucas, 12:13 a 21, está comentada nos originais do livro O Capital de Deus (Editora Elevação).

*4 Plano Invisível — Equivale a Mundo Espiritual.

*5 Nanotecnologia — Consiste na habilidade de manipular a matéria em escala atômica, compondo estruturas de tamanho ínfimo, utilizando-se, para isso, átomos como peças fundamentais. Pela reduzida escala em que atua, esta tecnologia é invisível aos olhos desprovidos de aparelhos especiais. O nanômetro, unidade de comprimento, é a bilionésima parte do metro.

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem “o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno. Em suma, a constante matemática que harmoniza a equação da existência espiritual, moral, mental e humana. Ora, sem esse saber de que existimos em dois planos, portanto não unicamente no físico, fica difícil alcançarmos a Sociedade realmente Solidária Altruística Ecumênica, porque continuaremos a ignorar que o conhecimento da Espiritualidade Superior eleva o caráter das criaturas e, por conseguinte, o direciona à construção da Cidadania Planetária”.