Deus, bioética e genoma sintético

Fonte: Jornal A Tribuna Regional, de Santo Ângelo/RS, edição de 29 e 30 de maio de 2010, sábado e domingo.

O anúncio da criação de um organismo vivo, a partir de um genoma sintético, tem provocado na comunidade internacional as mais diversas reações. Euforia, preocupação, cautela e perplexidade se alternam. O feito está sendo considerado uma das maiores descobertas científicas de todos os tempos.

Há por parte dos cientistas um entusiasmo fundamentado. É real a perspectiva de criar bactérias programadas para resolver problemas ambientais e energéticos. Ainda no âmbito dos benefícios, vislumbra-se o aceleramento na fabricação de vacinas, entre outros fins. Contudo, especialistas na área bioética e líderes religiosos alertam para a devida regulamentação e responsabilidade ética no aprimoramento da surpreendente experiência.

O assunto, por sua gravidade, levou o presidente dos EUA, Barack Obama, a solicitar à Comissão Presidencial para Estudo de Questões Bioéticas uma análise das consequências e implicações da célula artificial. No documento, expõe: “Em seu estudo, a comissão deve considerar o potencial médico, ambiental, de segurança, e outros benefícios desse campo de pesquisa, assim como riscos potenciais para a saúde, segurança e outros. Além disso, a comissão deve criar recomendações sobre qualquer ação que o governo federal deverá tomar para assegurar que os EUA colham os benefícios desse campo da Ciência, enquanto se identificam as fronteiras éticas e se minimizam os riscos”.

Amor, Ética e Esperança – Fundamentos para a vida civilizada

O escritor Alcione Giacomitti e sua esposa, Marilda de Fátima Covalski, com a filhinha, Nicole Covalski Giacomitti, que segura o livro Diretrizes Espirituais da Religião de Deus, do escritor Paiva Netto.

O tema, que ainda requer maiores estudos, me fez recordar uma entrevista que concedi, no início de 2000, ao escritor e produtor de TV Alcione Giacomitti. Ele a publicou em sua obra Os Pilares da Sabedoria de um Novo Mundo (2002), da Editora Elevação. Na época, a grande descoberta científica era o mapeamento completo do genoma humano. Em certo trecho de nosso diálogo, ao me indagar sobre até que ponto essa tecnologia moderna tem realmente beneficiado a Humanidade como um todo, assim me posicionei:

Reprodução do artigo de Paiva Netto publicado na antiga revista Manchete.

Houve um desenvolvimento material estupendo depois da Primeira Grande Guerra. Mas o correspondente no campo do sentimento e da moral não tem ocorrido conforme deveria. Fortaleceu-se, portanto, esse desequilíbrio. (...) Pela insistência na busca do progresso que menospreza o sentido da Espiritualidade, que é a relação íntima das Almas com seu Criador Supremo (entendido como Amor), o ser humano condena-se à desumanidade duradoura, precipitando milhões e milhões de pessoas na mais extrema miséria. (...) É nesse contexto, de adiantamento espiritual e expansão material, que consiste a chave para o crescimento tecnológico com qualidade de vida. (…) Sempre há uma saída, a curto, médio ou longo prazo. Numa de minhas crônicas (para a antiga revista Manchete), “Genoma, Ética e Fraternidade”, afirmei: Nunca, como agora, se torna tão necessária a prática de tudo o que se resume na expressão Fraternidade Ecumênica. A tecnologia supera as barreiras. (...) O genoma humano mapeado, com sua sequência descoberta pela primeira vez na História, descortina horizontes extraordinários, ao mesmo tempo que origina uma série de questões éticas que aguardam solução urgente. (...) É indispensável, pois, que decifremos, para adequadamente o aplicar, o Genoma de Deus, a razão de tudo: o Amor, que nos vem sustentando, motivo pelo qual ainda subsistimos aqui... na Terra. Embora a duras penas, temos preferido sobreviver. É preciso haver equilíbrio entre o avanço tecnológico-material e o ético-espiritual. Enquanto isso não ocorrer, o perigo permanece, como espada de Dâmocles sobre as nossas cabeças, traduzida neste paradoxo: era contemporânea e retorno social à Idade Média. Falta alguma coisa à tecnologia globalizante? Sim, coração e mente iluminados (isto é, maior parceria entre sentimento e intelecto), a mundialização da Solidariedade, de maneira que, entre outras coisas, a internet seja, cada vez mais, um poderoso caminho da Paz e das transformações, incluídas as sociais, e não o sistema nervoso alterado da sociedade tecnológica.

Vale a pena refletirmos a respeito.

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem "o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno".

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