
- José de Paiva Netto ― Jornalista, radialista e escritor.
Na Legião da Boa Vontade, LBV, o sentido que se tem de maternidade é amplo. É o que comentei em 22 de maio de 1988, na
Folha de S.Paulo: Deus — Mãe e Pai dos Seres Humanos — é universal abrangência. Assim sendo, Mães não são apenas as que geram filhos carnais. Também são aquelas que se consagram à sobrevivência dos filhos dos outros: as crianças órfãs, até mesmo de pais vivos; as das Mães que precisam trabalhar e não têm pessoa de confiança com quem deixá-las; as das que estão irremediavelmente enfermas. Tal como se lê no
Poema do Grande Milênio, de Alziro Zarur (1914-1979): “(...) Os filhos são filhos de todas as mães, e as mães são as mães de todos os filhos”.
Mães são, ainda, as que se devotam à Arte, à Literatura, à Ciência, à Filosofia, à Religião, à Política, à Economia, enfim, a diversos setores do pensamento ou ação criadora, a gerar “filhos” de sua dedicada competência pelo desenvolvimento da Humanidade. A LBV não ergue bastilhas, pelo contrário, as derriba com renovada Boa Vontade. (...)
Muito oportuna também é outra composição poética do velho Zarur:
Poema das Mães, uma ode à face maternal, à necessidade da marca afetuosa e forte deste ser no governo dos povos:
Poema das Mães
Desde que o mundo é mundo, até onde vai/ O arqueológico olhar da pré-História,/ Na família dos nobres ou da escória/ A mãe não manda, pois quem manda é o pai.
Sem pretensão alguma a Nostradamus,/ Eu creio que a razão desse destino/ Da mulher-mãe, que todos subjugamos,/ É o Deus antropomorfo-masculino.
“Se é homem o Criador (raciocinaram/ Os argutos filósofos de antanho),/ Façamos das mulheres um rebanho...”/ E assim fizeram quando assim pensaram.
Desde então, temos visto a velha farsa/ Representada, com solenidade,/ Nos países de toda a Humanidade/ Onde a moral pré-histórica anda esparsa.
“As mulheres não podem entender-nos”,/ Diziam os despóticos senhores./ E fomos vendo, em séculos de horrores,/ A falência dos homens nos governos.
Ao meditar, em raras horas mansas,/ Cheguei a conclusões desprimorosas:/ Os homens são crianças rancorosas,/ Sem a graça espontânea das crianças.
Só então compreendi o caos da guerra,/ Em seus apavorantes misereres:/ Coisa impossível de se ver na terra,/ Quando os governos forem de mulheres.
Assim é que não pode continuar!/ Porque os “chefes” — piores do que os cães/ Hidrófobos — têm este singular/ Defeito imenso de não serem mães.
Retrato de Mãe
Abro a revista Boa Vontade e encontro esta jóia do saudoso bispo chileno Dom Ramón Ángel Jara (1852-1917):
“Existe uma simples mulher que possui um pouco de Deus pela imensidade de seu Amor, e muito de anjo pela constância de sua dedicação. Mulher que, sendo jovem, pensa como anciã; e na velhice, trabalha como se tivesse o vigor da juventude; se é ignorante, decifra os problemas da vida com mais acerto do que um sábio; sendo culta, amolda-se à simplicidade das crianças; quando pobre, considera-se bastante rica com a felicidade daqueles que ama; e sendo rica, daria com prazer sua riqueza para não sofrer a injúria da ingratidão. Forte ou intrépida, entretanto estremece ante o choro de uma criancinha; franzina, se reveste, às vezes, da bravura de um leão. Mulher que, enquanto viva, não sabemos dar-lhe o devido valor, porque a seu lado todas as nossas dores se apagam... Mas, depois de morta, daríamos tudo o que somos e tudo o que temos para vê-la de novo um só instante e dela receber a carícia de seus abraços, uma palavra de seus lábios... Não exijais de mim que diga o nome dessa mulher se não quiserdes que eu inunde de lágrimas este álbum, porque já a vi passar em meu caminho. Porém, quando os vossos filhos crescerem, lede-lhes esta página. E eles, cobrindo-vos de beijos, dirão que um pobre viandante, em retribuição da magnífica hospedagem recebida, deixou gravado neste álbum, para todos, o retrato de sua própria Mãe”.Oração
A esses Seres iluminados, dedico a prece “Jesus e as Mães”, que fiz em homenagem às que habitam o Céu e a Terra.
Ó Jesus!/ Tu que és o Refúgio Seguro dos aflitos,/ Escuta a voz das Mães/ Que ao Teu Carinho elevam/ O clamor de suas súplicas./ Aplaca, Senhor, as suas dores,/ Pois cada uma delas,/ Ó Divino Amigo,/ Reconhece em Teu Coração/ O seu bom destino;/ Na Tua Santa Vontade, a força/ Que não lhes permite sucumbir;/ E, na Tua Sabedoria contemplam,/ As Mães da Terra e do Céu,/ A educação que anseiam para os filhos./ Em Ti, Jesus, elas, quando sofrem,/ Têm a certeza do alento,/ Que, em geral, o mundo não lhes pode oferecer,/ Porque ainda pouco tem para lhes dar./ Ouve, Filho Celeste de Maria Santíssima,/ O apelo dos corações maternos,/ Porque Tu, Jesus, és a esperança que nunca morre./ Melhor que isso: a convicção que não as deixa esmorecer./ E que assim, em Ti,/ Eternamente seja,/ Ó Divino Provedor!/ Amém!