A função civilizadora do comércio – Parte III

Fonte: Revista BOA VONTADE, edição 192, de agosto de 2004. | Atualizado em julho de 2018.

Vencer o retardamento espiritual

Este não é ainda um mundo ideal. Mas, se pensarmos apenas dentro dos limites físicos, que o constringem, como se nada mais houvesse além do reino físico, quando a Ciência já vem desmontando essa prisão, que nos tolheu o raciocínio e nos feriu a consciência pelos milênios, que mais seremos senão retardatários espirituais a atrasar o progresso das gerações, que esperam dos seus antecessores os fundamentos para uma existência mais digna?

ESA/Hubble & NASA, Acknowledgement: Sarajedini et al

Base de uma economia altruísta: Solidariedade.

Na Economia da Solidariedade Espiritual-Humana, componente da Estratégia da Sobrevivência que, há décadas, propomos, a maior vocação do ser espiritualmente esclarecido é servir ao Criador, no amparo de Suas criaturas. Para ilustrar, poderíamos dizer que, no trabalho de socorro aos nossos semelhantes, o melhor não é o suficiente. (Esta deveria tornar-se regra abraçada por todos, políticos e educadores, acrescida do item espiritual, pois nada se pode fazer de efetivo neste mundo se não conhecermos a nossa verdadeira origem, visto que, se estamos provisoriamente carne, somos eternamente Espírito). Portanto, não percamos ocasião de realizar o Bem. Isso nos renova sempre e impulsiona o indivíduo em sua jornada em busca do aprimoramento pessoal, como proclama o Corão Sagrado (A Família de Imran), 3a Surata, 92: Jamais alcançareis a virtude, até que façais caridade com aquilo que mais apreciardes. E sabei que, de toda caridade que fazeis, Deus bem o sabe”.

Caridade e Política

Reprodução BV

Lamartine Babo

A Caridade, na sua expressão mais profunda, deveria ser um dos principais estatutos da Política, porque não se restringe ao simples e louvável ato de dar um pão. É o sentimento que — iluminando a Alma do governante, do parlamentar e do magistrado — conduzirá o povo ao regime em que a Solidariedade é a base da Economia, entendida no seu mais amplo significado. Isso exige uma reestruturação da Cultura, por intermédio da Espiritualidade Ecumênica, como disciplina acadêmica. Estaríamos, assim, erigindo o império da Boa Vontade*6 neste mundo, o estado excelente para o Capital de Deus, que circula por todos os cantos e que não aceita especulação criminosa. Recordo-me de uma antiga marchinha do querido Lamartine Babo (1904-1963), tio do Sargentelli (1924-2002), que se cantava assim:

Já amei demais

no Ocidente

Só me falta um

grande Amor

que me oriente.

(...)

É o que anda faltando, senhores pragmaticíssimos, para que vigore a Paz entre Oeste e Leste: um grande Amor-Solidariedade que nos oriente. Senão, ao toque da Sexta Trombeta (Apocalipse de Jesus, 9:13, 14, 15 e 16) será ouvida

“13 (...) uma voz procedente dos quatro ângulos do altar de ouro que se encontra na presença de Deus,

“14 a qual dizia ao sexto Anjo, o mesmo que tem a trombeta: Solta os quatro Anjos que se encontram atados junto ao grande rio Eufrates.

“15 Foram, então, libertados os quatro Anjos que se achavam prontos para a hora, o dia, o mês e o ano, para que matassem a terça parte dos homens.

“16 O número dos exércitos da cavalaria era de vinte mil vezes dez milhares; eu ouvi o seu número: duzentos milhões. (...)”

Anotaram bem? Rio Eufratescujas águas secaram para que se preparasse o caminho dos reis que vêm do lado do nascimento do sol, o Oriente. E os ajuntou num lugar que em hebraico se chama Armagedom (Apocalipse, 16:12 e 16 — O Sexto Flagelo).

Tela: Sátyro Marques

Detalhe da obra: O sétimo selo - Os anjos com as suas trombetas.

Diante de alguns fatos atuais, muito sugestivas mesmo essas passagens do Livro da Revelação.

Ora, pessoas diferentes podem ecumenicamente atuar juntas, desde que o bem comum seja colocado acima de atavismos e idiossincrasias (as Olimpíadas são um modelo). Todos devemos entender que a nossa vida depende da preservação da nossa morada coletiva, isto é, o planeta Terra.

De certa forma, o sorridente Lalá (como carinhosamente era apelidado Lamartine), sabendo ou não, estava propondo, por meio da sua saltitante marchinha carnavalesca, um caminho diplomático a ser percorrido para que Ocidente e Oriente venham a se amar de verdade, de modo economicamente solidário, portanto, de maneira que não sejam massacradas as suas melhores tradições. A cultura popular costuma ver mais adiante do que a compreensão intelectual de grandes pensadores. Tolice?! As sendas, até agora transpostas, nos têm conduzido por estágios de incertezas, como este da globalização excludente. Não sou contra o mundo globalizado, mas não concordo com qualquer sistematização desumanizadora. Todavia, reconheço, como já declarei, que — enquanto não prevalecer o ensino eficaz por todos os de bom senso almejado, qualquer nação padecerá cativa das limitações que a si mesma se impõe. Há, ainda, outro pormenor a ser permanentemente destacado: precisamos de Educação e Cultura, mas também de muita Espiritualidade Ecumênica.

Muito além da compreensão comum de Espiritualidade Ecumênica

Quando falo em Espiritualidade, como de certa maneira já expliquei, envolvo aqueles que nos antecederam na marcha para o Mundo da Verdade, porque os mortos estão de pé*7. Duvida?! Todavia, sempre há um momento em que pensamos, no recôndito de nossa mente e de nosso coração — sem que ninguém, a não ser nós mesmos, o saiba —, naquilo que pode vir depois que nosso Espírito, na hora exata determinada por Deus, abandone as fronteiras da vida humana. Pode ser o menor dos cidadãos, o sacerdote mais alçado, o político mais conhecido, o juiz togado, o presidente da República, um rei ou imperador: ninguém foge ao fenômeno da morte. Que tal criar coragem e enfrentar o único fato inafastável da existência do ser, porque não há potência terrena que o possa impedir nem há dinheiro no mundo que corrompa uma Lei Universal?

Os poderes terrestres têm o limite de sua fatuidade. Os mortos aí estão, atuantes, e não são assombrações. Mas, na verdade, seres vivos que merecem respeito e que interferem em nossa vida, saibamos ou não.

Espíritos Preventivos

Dr. Bezerra de Menezes

Dr. Bezerra de Menezes (Espírito), nos originais de seu livro Reflexões sobre Jesus e Suas Leis (Editora Elevação), esclarece: “Constantemente somos influenciados por forças benignas ou malignas. Entretanto, se estamos querendo a Coerência Divina, os Espíritos de Deus serão os nossos inspiradores. São os que nos orientarão nos momentos de angústias e dores. Trata-se dos Espíritos Preventivos (nossos Anjos da Guarda). Ora, se andarmos com os Espíritos de Luz da Prevenção contra o erro, quem nos deterá?”

Quando o ser humano se purifica, tudo melhora à sua volta. Passa a receber maior proteção do Plano Invisível. A esse respeito, escrevi em Somos todos Profetas (1991) que o mundo físico não mais evoluirá sem o amparo flagrante do Mundo Espiritual. Eis o grande ensinamento que as nações aprenderão no transcurso do terceiro milênio.

Encontra-se em pleno desenvolvimento, para os que têm “olhos de ver e ouvidos de ouvir”, a Revolução Social dos Espíritos da Luz, sem o auxílio da qual nenhuma reforma humana terá bom termo. Não se esqueçam do que já lhes declarei que a efetiva reforma social é oriunda do Mundo Espiritual. Nunca estamos sós. O ato de orar é uma demonstração disso.

(Continua)

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*6 Proclamação da Boa Vontade de Deus — Zarur nos esclarece nos itens XI e XII desta Proclamação: “Nossa Boa Vontade não é, absolutamente, a boa-vontade que se vulgarizou nos banquetes das futilidades humanas. A nossa é a Vontade Boa de Nosso Senhor Jesus Cristo, aquela que sabe discernir entre o Bem e o mal, entre a Verdade e o erro, entre o Fato e as aparências do fato. Atingir o equilíbrio é a meta suprema. O Bem nunca será vencido pelo mal. Glória a Deus nas alturas, Paz na Terra aos homens [e às mulheres] da Boa Vontade de Deus!” (Paiva Netto, Sagradas Diretrizes Espirituais da Religião de Deus, do Cristo e do Espírito Santo, vol. 3).

*7 Os mortos estão de pé — Para melhor compreensão do assunto, leia o Apocalipse de Jesus, segundo João, e os livros da Editora Elevação: Somos todos Profetas (1991), As Profecias sem Mistério (1998), Apocalipse sem Medo (2000), Jesus, o Profeta Divino (2011) e Jesus, a Dor e a origem de Sua Autoridade — O Poder do Cristo em nós (2014), que fazem parte da coleção “O Apocalipse de Jesus para os Simples de Coração”, da autoria de Paiva Netto, e que já ultrapassou a expressiva marca de 3 milhões de exemplares. Leia também O Brasil e o Apocalipse, vol. 3, especialmente o capítulo “A abrangência do TBV”, também do mesmo autor.

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem "o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno".