O Souza

Fonte: Antiga revista Manchete, edição de 15 de abril de 2000 | Atualizado em dezembro de 2016.

Apresento-lhes um conto bem singular, que promove ação pragmática no cotidiano. De vez em quando, alguém chega para dialogar e vem com aquela conversa: “Ah! Não sei mais o que faço! Dá tudo errado na minha vida! Até Deus se esqueceu de mim!”.

Aí me lembro de uma página que, há alguns anos (e bota anos nisso!), recebi datilografada por uma ouvinte atenta de meus programas radiofônicos. Uma historinha criada por Brad Lohr e Helene Lorber, que vou repetir de memória. Quem tiver o original, por obséquio, consiga-me uma cópia. E, desde já, agradeço. É bem interessante e instrutiva para os que precisam de maior decisão em suas existências e que, portanto, não devem agir, de forma alguma, a exemplo do “Souza”:

kBorba

“Durante uma enchente, o ‘Souza’ estava sentado no telhado da sua casa, com água já lhe chegando aos pés. Pouco depois, passou um homem numa canoa e gritou:
“— Ei! Quer uma caroninha até um lugar mais seguro?
“— Não, obrigado! — respondeu. — Tenho fé no Senhor e Ele vai me salvar!

“Em pouco tempo a água subiu até a cintura do nosso herói. Foi quando veio uma lancha e alguém, aos brados, o chamou:
“— Você aí! Quer uma ajudazinha até um terreno mais elevado?
“— Não, grato! Confio no Senhor. Ele me salvará!
“Posteriormente, um helicóptero atravessou os ares, e o teimoso do ‘Souza’ já estava de pé no telhado, com água pelo pescoço.
“— Agarre a corda! — clamou o piloto. — Vou puxar Você para cá!
“— Não, muito agradecido — redarguiu —, mas não posso ir. Acredito no Senhor e Ele há de me salvar!
“Afinal, foi arrastado pela inundação. Depois de muitas horas nadando, o pobre homem, exausto, afogou-se e foi procurar a sua recompensa divina. Ao chegar aos portais do Céu, encontrou o Criador e lamentou-se do que lhe havia ocorrido:
“— Senhor, acreditei em Vós e acabei morrendo! Que foi que aconteceu?
“Deus então lhe falou assim:
“— Ora, ‘Souza’, de que estás reclamando?! Mandei-te dois barcos e um helicóptero, e tu não te valeste das oportunidades que te ofereci...”
.

Arquivo BV

Alziro Zarur   

Não ajamos, pois, à semelhança do “Souza” que, a pretexto de uma salvação “supermilagrosa”, que Deus lhe mandaria, terminou morrendo afogado... Não quis valer-se de todos os socorros que Ele lhe enviara, por meio de barcos e até mesmo helicóptero. Para quem busca estar integrado no Pai Celestial, obstáculos são estímulos. Barreiras podem ser o tormento dos falhos de ânimo. Representam, contudo, molas impulsoras dos homens que se obstinam por um Ideal. Há um aforismo russo que singulariza uma advertência aos ociosos do corpo e da mente: “Confie em Deus, mas continue nadando para a praia”. Alziro Zarur (1914-1979) dizia: “Faze a tua parte, que Deus fará a parte Dele”.

Eis aí.

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem “o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno. Em suma, a constante matemática que harmoniza a equação da existência espiritual, moral, mental e humana. Ora, sem esse saber de que existimos em dois planos, portanto não unicamente no físico, fica difícil alcançarmos a Sociedade realmente Solidária Altruística Ecumênica, porque continuaremos a ignorar que o conhecimento da Espiritualidade Superior eleva o caráter das criaturas e, por conseguinte, o direciona à construção da Cidadania Planetária”.