Conhecendo o país da Copa

Fonte: Jornal A Tribuna Regional, de Santo Ângelo/RS, edição de 12 e 13 de junho de 2010, sábado e domingo.

Ao redigir este artigo, cumprindo prazo de entrega para os jornais (5a feira), olho o calendário à minha frente e noto faltar apenas um dia para o jogo inaugural da Copa do Mundo, na África do Sul. Aliás, a primeira nação africana a sediar o principal evento futebolístico do planeta.

Gilberto Bertolin

O ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, sua esposa, Graça Machel, e Enaildo Viana, representante do diretor-presidente da LBV, na solenidade em que Mandela foi homenageado com a Comenda do ParlaMundi, em 1997.

Este é um ano significativo para os sul-africanos. Eles comemoram duas décadas da libertação de Nelson Mandela, líder na luta contra o apartheid. Por sinal, estando no Brasil em 1998, ele recebeu do ParlaMundi da LBV a Comenda da Ordem do Mérito da Fraternidade Ecumênica.

Apesar do fim do regime de segregação racial, pode-se perceber, ainda nos dias atuais, acentuada desigualdade social no país. Quarenta por cento da população sobrevive com dois dólares/dia. Mas as coisas, embora lentamente, estão melhorando. Uma classe média negra (mais de 2,5 milhões de pessoas) começa a influenciar a economia local. Situada na mesma latitude do sul do Brasil, antiga rota de navegação para as Índias, terra rica em minérios, dos 49,5 milhões de habitantes, 2% são de origem indiana, 9% de brancos, outros 9% de mestiços, e a maioria esmagadora, 80%, de negros. Povo de diversas etnias – são 11 idiomas oficiais –, a mais conhecida é a zulu (formada por guerreiros que derrotaram os ingleses no século 19), cuja língua é a mais falada. Para não haver dificuldades de comunicação entre os grupos étnicos, o inglês, usado pela quase totalidade dos cidadãos, surge como mediador.

A África do Sul tornou-se politicamente independente em 1961, mas firmou-se como uma democracia há apenas 16 anos. Em pleno século 21, nas regiões mais pobres, a falta de emprego, de saneamento básico e de condições dignas de saúde é uma realidade. Os sul-africanos possuem o trágico título de nação com o maior número de infectados pelo vírus HIV: perto de 6 milhões de pessoas. Enfrentam, ainda, doenças endêmicas, a exemplo da malária e da tuberculose. A violência é outro grave problema. Não obstante os números apontarem diminuição dos assassinatos (37 para cada 100 mil habitantes), as estatísticas de estupro assustam: um entre cinco homens admite tê-lo praticado, índice encontrado em áreas de conflito.

Sabemos que a solução dos problemas sociais passa inicialmente pelo fortalecimento da Educação. E a África do Sul percebeu isso. Atualmente destina para a área educacional, de acordo com dados oficiais, 6,6% do PIB.


Marcello Casal Jr/ABr

Soweto (África do Sul) - Ao som de vuvuzelas, pessoas fantasiadas com pernas de paus, máscaras e rostos pintados com as cores da Bandeira sul-africana, além de bonecos gigantes, participam de carnaval no Parque Mofolo

Soweto e o mundo da bola

Johannesburgo, com cerca de 5,3 milhões de habitantes, é a maior cidade da África do Sul e a quarta do continente africano, atrás somente do Cairo, de Lagos e de Kinshasa. Segundo as Nações Unidas, é a mais desigual do planeta, já que pouca distância separa a abastança da miséria.

Nela, um distrito chamado Soweto – podendo ser traduzido por Assentamento no sudoeste, onde muitos negros e mestiços foram deslocados durante o apartheid – abriga o Soccer City, estádio construído praticamente na entrada do bairro. É nele, após ter sua capacidade ampliada, que ocorre, entre outros, o jogo de abertura e encerramento da Copa do Mundo. Foi nesse estádio que Nelson Mandela proferiu seu primeiro discurso após ser libertado, em 1990. Nosso primeiro desafio no Soccer City será em 20/6 contra a Costa do Marfim. Jogar nele a última partida da Copa significa, para qualquer seleção, ter chegado à final. E todos esperamos ver o Brasil lá.

Levante de 1976

Soweto é famoso por moradores ilustres. Além de Mandela, que viveu no local, outro Prêmio Nobel, o arcebispo Desmond Tutu*, mantém residência ali. O distrito chamou a atenção do mundo pelo levante de 1976, quando estudantes negros protestaram contra o ensino do africâner (a língua dos colonos brancos). Segundo pesquisadores, esse movimento custou a vida de mais de mil jovens.

A África do Sul tem um belo futuro. A alegria do seu povo, a mistura de etnias e o forte desejo de se libertar do passado opressor dão aos sul-africanos os ingredientes do sucesso. Como a esfericidade da bola, que eles possam, em uníssono, construir um novo país, em que brancos, negros e mestiços vivam com deveres e direitos iguais!

Seleção da Solidariedade

Aqui no Brasil, craques do futebol nacional e do exterior e que foram convocados para a Copa do Mundo 2010 participam de uma grande ação solidária promovida pela Legião da Boa Vontade. Trata-se da Campanha África do Sul 2010 — Fiz um gol pela infância brasileira! Visa mobilizar a todos na ajuda às crianças em situação de vulnerabilidade social. Aqueles que colaborarem receberão uma camisa com as assinaturas de renomados esportistas, entre eles: Robinho, Julio César, Doni, Juan, Luisão, Maicon, Gilberto Silva, Júlio Baptista, Josué, Nilmar e Elano. A iniciativa também homenageia ícones do futebol brasileiro como Pelé, Zagallo, Zico, Marcos e Cafu, que sempre apoiaram a LBV. Faça sua doação e garanta a camisa acessando o site www.euajudoamudar.org.

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* Desmond Tutu (1931-2021)

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem “o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno. Em suma, a constante matemática que harmoniza a equação da existência espiritual, moral, mental e humana. Ora, sem esse saber de que existimos em dois planos, portanto não unicamente no físico, fica difícil alcançarmos a Sociedade realmente Solidária Altruística Ecumênica, porque continuaremos a ignorar que o conhecimento da Espiritualidade Superior eleva o caráter das criaturas e, por conseguinte, o direciona à construção da Cidadania Planetária”.