Gandhi: o capital em si não é mau

Fonte: Jornal A Tribuna Regional, de Santo Ângelo/RS, edição de 18 e 19 de outubro de 2008, sábado e domingo.

Ensinou Jesus, o Cristo Ecumênico, o Divino Estadista: “Bem-aventurados os pacientes porque eles herdarão a Terra” (Sermão da Montanha, segundo Mateus, 5:5). Em outubro de 1991, ao ler e concomitantemente analisar o Manifesto da Boa Vontade, que lancei por ocasião da Pedra Fundamental do ParlaMundi da LBV, em Brasília/DF, declarei que — faltava ao Brasil um poderoso mercado interno e um complexo industrial, tecnologicamente atualizado, que de forma plena satisfizesse a sua demanda nacional sem prejuízo da exportação. Lembro-me ainda das aulas de História no Colégio Pedro II, com o saudoso professor Newton Gonçalves de Barros, que tanto amou o nosso torrão natal. Muitos imaginaram, naquela época romântica, que, no governo Juscelino Kubitschek (1956 a 1961) e nos logo a seguir, o mercado interno brasileiro tomaria poderio semelhante ao dos países mais ricos, a exemplo dos Estados Unidos.

Tela: James Tissot (1836-1902)

Detalhe da obra intitulada: O Sermão das Bem-aventuranças.

Arquivo BV

Mahatma Gandhi

(Hoje vemos isso em pujante desenvolvimento no Brasil. E os graves problemas que estão desestabilizando o mercado internacional são resultantes dos maus gestores, entre outras coisas.)

Mahatma Gandhi (1869-1948), numa frase lapidar, retratou a realidade: “O capital em si não é mau; o uso incorreto dele é que é ruim”.

Economia: a mais espiritual das ciências

E para bem entendermos esse conceito do sábio ativista indiano, necessário é que compreendamos, para surpresa de alguns, que a Economia é essencialmente espiritual, posto que, de fato, é no “Outro Lado da Vida” que se encontra a sua verdadeira origem. Essa foi a defesa que fiz na entrevista publicada pela Folha de S.Paulo, no Segundo Caderno, em 7 de novembro de 1982, na seção Exterior, quando tratávamos de nossa presença na ONU:

(...) Economia também tem de ser vista sob o aspecto religioso da solidariedade, que garanta a todos o acesso aos bens de produção: a Economia é a mais espiritual, no sentido mais amplo, das ciências (ou arte). E aqui estou falando de religião, com todas as letras maiúsculas, e não dos casos patológicos catalogados como tal no passar da História. Ela é algo supinamente elevado, que nada tem a ver com os conflitos produzidos pelos homens. Jesus é o maior economista do planeta Terra, visto que possui todos os talentos de Deus para semear entre os seres humanos, em consonância com o merecimento pessoal. É Ele quem diz — “a cada um de acordo com as suas obras” (Evangelho, conforme Mateus, 16:27). E isso faz parte da Estratégia da Sobrevivência, que há vários anos defendo. (...)

Tela: Bartolomeo Letterini (1669–1745)

Detalhe da obra: Multiplicação de pães e peixes.

Muito além do mercado 

E observem que o Gandhi não pensava e agia apenas à maneira de um religioso, todavia como um bom político.

Com aquela afirmativa à Folha, procurei demonstrar que, acima do mercado, existe um requisito anterior a ele, que há de subsistir eternamente. Trata-se do Espírito eterno do ser humano que, evoluído e valorizado como o Capital de Deus, torna-se o fulcro de estabilidade da Economia, porque se contrapõe à ganância e à impunidade. Desse modo, não poderá, sem más consequências, ser vítima de ceticismos ou fanatismos, pois o Divino Dono do capital chamado Espírito virá, por processos que a maioria ainda não deduz, cobrar dos seus reducionistas ou detratores os desvios. A Economia é a mais espiritual das ciências (ou arte), porquanto enfeixa o ordenamento dos bens imprescindíveis à sobrevivência dos cidadãos e à melhoria da qualidade de vida. Abordar, com apurado senso, este assunto é uma incumbência natural dos religiosos e mesmo dos descrentes em relação à existência da Divindade, mas que trazem dentro de si o respeito à nobreza do semelhante. Sem espírito solidário não haverá civilização sobrevivente (...).

Urge um grande serviço ecumênico de reeducação, pois não há regime bom enquanto o homem for mau (desculpem o cacófato). Ecumenismo, quer dizer, universalismo, como o inferimos, é Educação aberta à Paz.

Era superglobalizante e perigo

   

Em Apocalipse sem Medo (1999), no capítulo “Extratos de O Capital de Deus”, considerei que sempre existirá a necessidade de trabalho, como haverão de entender os corifeus desta era superglobalizante. Contudo, é indispensável que possuam preocupações sociais efetivas com as massas indigentes das nações pouco desenvolvidas e/ou em guerra. Um dia, a casa pode cair. Mesmo! 

Arquivo BV

Benjamin Franklin

Benjamin Franklin (1706-1790) apropriadamente apontou que “só sabemos o valor da água quando o poço seca”Touché!

Sem limitações

Não há limites para a solidária expansão do Capital de Deus: o Espírito Eterno do ser humano.

No porvir, esta divina verdade tornar-se-á uma certeza irrefragável para a consciência humana: finalmente compreender que o Espírito imortal é o moto-perpétuo de todo o progresso sem poluições e também o inderrotável advogado de defesa da paz desarmada.

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta. É diretor-presidente da Legião da Boa Vontade (LBV). Membro efetivo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), é filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), à International Federation of Journalists (IFJ), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, ao Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e à União Brasileira de Compositores (UBC). Integra também a Academia de Letras do Brasil Central. É autor de referência internacional na defesa dos direitos humanos e na conceituação da causa da Cidadania e da Espiritualidade Ecumênicas, que, segundo ele, constituem "o berço dos mais generosos valores que nascem da Alma, a morada das emoções e do raciocínio iluminado pela intuição, a ambiência que abrange tudo o que transcende ao campo comum da matéria e provém da sensibilidade humana sublimada, a exemplo da Verdade, da Justiça, da Misericórdia, da Ética, da Honestidade, da Generosidade, do Amor Fraterno".